“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.”
Romanos 12.2.
Dentro de poucas semanas, milhões de brasileiros irão novamente às urnas. No dia 4 de outubro de 2026, o país escolherá presidente da República, governadores, senadores e deputados. É natural que, neste período, os discursos se intensifiquem, as opiniões se acirrem e as pessoas sejam pressionadas a tomar posição.
Para o cristão, porém, existe uma questão anterior à escolha de um candidato.
Antes de decidir em quem votar, precisamos saber a partir de quais princípios estamos pensando.
Essa talvez seja uma das discussões mais importantes que a Igreja precisa promover neste momento.
O problema não começa na urna
Frequentemente perguntamos: em quem o cristão deve votar? Qual candidato representa melhor os valores cristãos? O cristão pode ser de esquerda? Pode ser de direita?
Essas perguntas são legítimas, mas existe uma pergunta anterior a todas elas:
Como um cristão deve pensar?
Se não respondermos a isso, correremos o risco de levar para dentro da igreja pensamentos que não nasceram das Escrituras e, depois, procurar versículos que os justifiquem.
O caminho deveria ser exatamente o contrário.
Não devemos começar com nossas preferências políticas e depois consultar a Bíblia. Devemos começar com as Escrituras e permitir que elas examinem inclusive nossas preferências políticas.
Paulo ensina que a transformação cristã passa pela renovação da mente. O Evangelho não transforma apenas nosso comportamento. Ele transforma também nossa maneira de pensar.
É aqui que precisamos falar sobre cosmovisão cristã.
Todo mundo enxerga o mundo através de alguma lente
Cosmovisão é, em termos simples, a maneira pela qual interpretamos a realidade.
Mesmo quem nunca ouviu essa palavra possui uma cosmovisão.
Quando pensamos sobre família, dinheiro, pobreza, justiça, sexualidade, liberdade, dignidade humana, aborto, educação, segurança pública ou responsabilidade do Estado, não pensamos a partir do nada. Interpretamos essas questões através de valores e convicções que fomos adquirindo ao longo da vida.
A pergunta para o cristão é: quem está formando essa maneira de pensar?
As Escrituras? A cultura? As redes sociais? Nosso partido político? Nosso candidato preferido? O influenciador que acompanhamos?
Esse exame é necessário porque podemos ser sinceramente cristãos e, ainda assim, conservar áreas de nosso pensamento que nunca foram confrontadas pela Palavra de Deus.
O cristão pode ser de esquerda ou de direita?
Precisamos conversar sobre isso com maturidade.
Ser cristão não significa necessariamente pertencer a determinado partido político. Também não significa que todos os cristãos chegarão às mesmas conclusões sobre economia, administração pública, tributação, programas sociais ou inúmeras outras questões.
Existem princípios associados historicamente a diferentes tradições políticas que podem tocar preocupações legítimas. O cuidado com o pobre importa. A responsabilidade pessoal importa. A proteção da família importa. A justiça importa. A liberdade importa. A assistência ao necessitado importa. A responsabilidade fiscal também importa.
O erro começa quando transformamos um partido, um político ou uma corrente ideológica em intérprete absoluto da realidade.
O cristão pode dialogar com a esquerda. Pode dialogar com a direita. Pode reconhecer acertos e denunciar erros em ambas.
O que ele não pode fazer é entregar sua consciência a nenhuma delas.
Nossa identidade mais profunda não pode ser determinada por uma legenda.
Antes de sermos de esquerda ou de direita, somos discípulos de Jesus Cristo.
Quando a Bíblia discorda do meu candidato
Aqui está um teste difícil.
O que fazemos quando as Escrituras confrontam uma posição defendida pelo grupo político com o qual nos identificamos?
Tentamos reinterpretar a Bíblia? Ignoramos o assunto? Procuramos uma justificativa? Ou temos humildade suficiente para reconhecer: neste ponto, meu grupo político está errado?
Essa capacidade talvez seja um dos sinais mais importantes de maturidade cristã no ambiente político.
Se eu consigo enxergar facilmente os erros do candidato adversário, mas sou incapaz de reconhecer os erros daquele que apoio, talvez minha consciência já esteja mais comprometida com um grupo político do que imagino.
O cristão não deveria perguntar apenas: “O que meu candidato pensa sobre isso?”
Deveria perguntar primeiro: “O que as Escrituras ensinam e quais princípios bíblicos devem orientar minha compreensão deste assunto?”
Isso muda completamente a conversa.
Jesus não cabe em nossas divisões políticas
Há temas sobre os quais a Bíblia nos levará a conclusões que hoje poderão ser chamadas de conservadoras.
Em outros, a mesma Escritura nos obrigará a defender o pobre, o estrangeiro, o necessitado, o preso, a viúva, o órfão e aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade.
“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estive preso, e fostes ver-me.”
Mateus 25.35-36.
Observe algo importante. Jesus não está abolindo responsabilidade, justiça ou consequências. O preso continua preso. Mas sua condição não elimina sua dignidade.
Esse princípio deveria mexer profundamente com nossa maneira de pensar políticas públicas.
A fé cristã não nos permite escolher entre verdade e compaixão, entre responsabilidade e misericórdia, entre justiça e dignidade humana.
Precisamos aprender a pensar biblicamente sobre todas elas.
O voto é apenas uma das consequências
“Estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós.”
1 Pedro 3.15.
Mas há algo que às vezes esquecemos. Antes de Pedro falar sobre a resposta que devemos oferecer, ele diz que devemos santificar Cristo como Senhor em nosso coração.
Essa ordem é fundamental.
Primeiro Cristo ocupa o centro. Depois aprendemos a responder.
Por isso, minha preocupação nestas semanas que antecedem as eleições não é dizer ao cristão simplesmente em quem votar.
Quero propor algo mais trabalhoso.
Quero convidá-lo a aprender como pensar cristãmente antes de votar.
Porque, se aprendermos apenas em quem votar nesta eleição, precisaremos novamente que alguém nos diga o que fazer na próxima.
Mas, se aprendermos a examinar ideias, propostas, candidatos e políticas à luz das Escrituras, teremos desenvolvido algo muito mais precioso: discernimento.
Antes de apertar o botão da urna
No próximo dia 4 de outubro, cada eleitor estará sozinho diante de uma urna.
Mas nenhuma decisão tomada naquele momento começou ali.
Levaremos conosco nossa história, nossos medos, nossas esperanças, nossas preferências e nossa maneira de enxergar o mundo.
Por isso, antes de escolher candidatos, precisamos examinar a lente através da qual estamos fazendo nossas escolhas.
Não pergunte apenas se determinada proposta é de esquerda ou de direita. Pergunte se ela é justa.
Não pergunte apenas quem a defende. Examine o que está sendo defendido.
Não permita que sua admiração por um político lhe retire a capacidade de julgá-lo.
Nas próximas semanas, quero conversar aqui sobre alguns dos grandes temas que aparecem no debate público. Aborto, assistência social, dignidade humana, família, liberdade, responsabilidade individual, papel do Estado e outras questões.
Mas não começaremos pelos partidos.
Começaremos pela Bíblia.
Porque a grande necessidade do cristão em uma eleição não é descobrir qual ideologia deve seguir.
É aprender a pensar como discípulo de Jesus Cristo.
Antes de escolher em quem votar, permita que a Palavra de Deus ensine você a pensar.
Pr. Geziel Damasceno
Transformando vidas pela Palavra.
Série: Cosmovisão Cristã e Vida Pública
Este artigo inicia uma série de reflexões sobre como o cristão pode analisar os grandes debates da sociedade a partir das Escrituras, sem submeter sua fé a partidos, candidatos ou ideologias.
Próximo artigo: O cristão pode ser de esquerda ou de direita?
Informação eleitoral conferida no calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral: o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 será realizado em 4 de outubro de 2026.