Quando a teologia serve para blindar o ego e resistir ao quebrantamento
Tem sido dito, em alguns círculos, que o cristão não precisa pedir perdão a ninguém, apenas a Deus. À primeira vista, isso parece piedoso. Mas, quando olhamos para a Bíblia com simplicidade e honestidade, percebemos que essa ideia não se sustenta.
É verdade que todo pecado, em última instância, é contra Deus e que somente Ele concede o perdão redentor. Isso diz respeito à nossa salvação. Porém, a mesma Escritura nunca usa essa verdade para livrar o ofensor de lidar com as pessoas que foram feridas por suas palavras e atitudes. O pecado começa no coração diante de Deus, mas quase sempre termina machucando gente de verdade.
A Bíblia não apresenta uma fórmula pronta dizendo exatamente como pedir perdão, mas apresenta algo ainda mais claro: reconciliação exige atitude. Não dá para imaginar um ofensor verdadeiramente arrependido diante do ofendido apenas olhando para ele, em silêncio, esperando que tudo se resolva sozinho. Arrependimento que não se expressa em palavras e atitudes é incompleto. Quem erra precisa reconhecer o erro. Precisa dizer. Precisa se humilhar.
Jesus ensinou que, se alguém ofendeu o irmão, deve ir até ele antes mesmo de continuar o culto. Isso deixa claro que espiritualidade verdadeira não ignora relações quebradas. Reconciliação não é fingir que nada aconteceu. É assumir a culpa e buscar restauração.
Aqui surge outro erro comum e igualmente grave: colocar sobre o ofendido a responsabilidade de buscar o ofensor e pedir que o perdoe. Biblicamente, isso inverte a ordem. Quem causou a ferida é quem deve dar o primeiro passo. Quando o ofendido precisa ir atrás, algo já está errado. Isso não é maturidade espiritual. É fuga de responsabilidade.
Pastoralmente, precisamos dizer com clareza: a recusa em pedir perdão muitas vezes não é maturidade, é orgulho. Ao não pedir perdão, o coração se protege da humilhação, preserva o ego e evita o constrangimento que o arrependimento verdadeiro exige. A humildade ensinada por Cristo nunca foi teórica. Ela é prática, visível e, muitas vezes, desconfortável.
Essa postura aparece de forma muito dolorosa no casamento. Muitos lares não se quebram por falta de amor, mas por falta de humildade. Palavras duras e feridas repetidas se acumulam porque falta disposição para dizer algo simples: “errei, me perdoe”. Quando esse pedido não acontece, a ponte da reconciliação se rompe, o silêncio cresce e o coração se endurece.
De forma simples e direta, a Bíblia nos ensina isto: quem erra precisa reconhecer, falar e buscar reconciliação. Uma fé que elimina o pedido de perdão não produz santidade. Produz distância. Onde não há disposição para dizer “errei” e “me perdoe”, algo essencial ainda não foi tratado no coração.
Pr. Geziel Damasceno
Transformando vidas pela Palavra.
