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O cristão pode ser de esquerda ou de direita?

Uma reflexão bíblica sobre direita, esquerda e a necessidade de colocar nossas convicções políticas sob a autoridade de Cristo e das Escrituras.

“És tu dos nossos ou dos nossos adversários? […] Não; sou príncipe do exército do Senhor e acabo de chegar.”
Josué 5.13-14.

No Brasil, falar de esquerda e direita deixou de ser apenas uma discussão sobre política. Para muitas pessoas, essas palavras passaram a definir amizades, relacionamentos, igrejas e até a maneira como enxergam outros cristãos. Em alguns ambientes, dizer que alguém é “de esquerda” ou “de direita” parece suficiente para determinar se aquela pessoa está certa ou errada.

Mas existe uma pergunta anterior a todas essas classificações: o cristão pode ser de esquerda ou de direita?

A resposta exige cuidado. Não porque a Bíblia seja insuficiente, mas porque “esquerda” e “direita”, como categorias políticas, surgiram muitos séculos depois dos acontecimentos bíblicos. Portanto, antes de tentar colocar Jesus de um lado ou de outro, precisamos entender algo fundamental: Cristo não precisa caber dentro das nossas categorias políticas. Nossas categorias políticas é que precisam ser examinadas diante dele.

Afinal, a Bíblia não fala de direita e esquerda?

Fala. E bastante.

Na linguagem bíblica, a direita frequentemente aparece como posição de honra, autoridade, força e favor. O Salmo 110.1 declara: “Assenta-te à minha direita”. No Novo Testamento, Cristo é apresentado à direita de Deus. Eclesiastes 10.2 afirma que “o coração do sábio se inclina para o lado direito, mas o do insensato, para o esquerdo”.

Talvez o exemplo mais conhecido esteja em Mateus 25.31-46. Jesus descreve o Filho do Homem separando as pessoas como um pastor separa ovelhas e bodes. As ovelhas são colocadas à direita e os bodes à esquerda.

Alguém poderia brincar: “Está vendo? Até Jesus colocou os bons à direita.”

Sim. Colocou.

A simbologia existe e não precisamos negá-la para sermos politicamente equilibrados. O problema começa quando transformamos uma imagem bíblica antiga em argumento para uma classificação política moderna.

A direita e a esquerda de Mateus 25 não são partidos, movimentos políticos ou ideologias. Jesus não estava discutindo capitalismo, socialismo, conservadorismo ou progressismo.

Mas há algo ainda mais interessante. Se alguém quiser utilizar Mateus 25 para dizer que “os bons estão à direita”, precisa continuar lendo para descobrir por que eles estão lá.

Continue lendo o texto

“Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estive na prisão, e fostes ver-me.”
Mateus 25.35-36.

Aqui a discussão fica interessante.

Os que foram colocados à direita demonstraram preocupação com o faminto, o estrangeiro, o necessitado, o enfermo e o preso.

No debate político contemporâneo, algumas dessas preocupações são frequentemente associadas à esquerda: pobreza, vulnerabilidade, assistência social, acolhimento e proteção dos necessitados.

Então Jesus é de esquerda?

Também não.

E é exatamente aí que percebemos o problema de tentar fazer Jesus caber em nossas divisões políticas.

Quando alguém utiliza apenas a posição das ovelhas para reivindicar Jesus para a direita, precisa lidar com as atitudes que Jesus elogia. Quando alguém utiliza apenas a preocupação com os vulneráveis para reivindicar Jesus para a esquerda, também terá de lidar com tudo aquilo que as Escrituras ensinam sobre vida, família, sexualidade, responsabilidade pessoal, trabalho, justiça, autoridade e verdade moral.

Jesus não cabe confortavelmente dentro de nenhum dos nossos pacotes ideológicos.

Talvez o problema esteja na própria pergunta.

“Você é dos nossos ou dos nossos adversários?”

Pouco antes da conquista de Jericó, Josué teve um encontro extraordinário.

Ele viu diante de si um homem com uma espada desembainhada. Josué aproximou-se e fez uma pergunta perfeitamente compreensível para um comandante que estava prestes a entrar em batalha:

“És tu dos nossos ou dos nossos adversários?”
Josué 5.13.

A pergunta oferecia apenas duas possibilidades: ou você está conosco, ou está com eles.

Curiosamente, é assim que boa parte da política funciona hoje. Você é de direita ou de esquerda? Está conosco ou com eles? Defende o nosso candidato ou o adversário? É conservador ou progressista?

Josué também queria uma definição. A resposta que recebeu foi surpreendente:

“Não; sou príncipe do exército do Senhor e acabo de chegar.”
Josué 5.14.

No texto hebraico, a resposta começa com uma palavra curtíssima: lo, “não”.

Josué ofereceu duas alternativas, mas o Príncipe do exército do Senhor recusou a maneira como a questão havia sido apresentada.

O problema estava no ponto de referência. Josué perguntou: “Você é dos nossos?” Mas Josué não era o centro. Israel não era o centro. O Senhor era o centro.

Quando o comandante se torna servo

A mudança que acontece em seguida é impressionante.

Josué era o comandante de Israel. Entretanto, quando compreende diante de quem está, prostra-se e pergunta:

“Que diz meu Senhor ao seu servo?”
Josué 5.14.

Observe a mudança. Primeiro: “Você está conosco?” Depois: “O que meu Senhor diz ao seu servo?”

Josué deixou de tentar descobrir onde o Príncipe se encaixava em sua batalha e passou a perguntar qual deveria ser sua própria posição diante dele.

É exatamente essa mudança que precisamos fazer quando tratamos de política.

Em vez de perguntarmos “Deus está com a direita ou com a esquerda?”, deveríamos perguntar: “Senhor, onde minhas convicções precisam ser corrigidas pela tua Palavra?”

Essa pergunta é muito mais difícil. Porque é relativamente fácil utilizar a Bíblia para confrontar o grupo político do qual discordamos. Difícil é permitir que a mesma Bíblia confronte o grupo com o qual nos identificamos.

Tire as sandálias

Então o Príncipe do exército do Senhor diz:

“Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é santo.”
Josué 5.15.

A cena lembra imediatamente o encontro de Moisés com Deus na sarça ardente, em Êxodo 3.5.

Entendo essa manifestação como uma cristofania, uma manifestação de Cristo antes de sua encarnação. Essa identificação possui longa tradição na interpretação cristã, embora existam outras interpretações da passagem.

Para nossa reflexão, entretanto, algo é incontornável: Josué precisa reconhecer que está diante de uma autoridade maior do que ele.

Ele chegou como comandante. Terminou prostrado como servo.

Josué queria saber de que lado estava o Príncipe. O Príncipe mostrou a Josué quem estava no centro.

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades da nossa relação com a política. Queremos que Deus abençoe nossas escolhas, confirme nossas opiniões, aprove nossos candidatos e autentique nossas ideologias.

Mas diante da Palavra de Deus, todos precisamos tirar as sandálias. Nossas convicções econômicas, sociais e políticas precisam reconhecer que existe uma autoridade acima delas.

Então, o cristão pode ser de esquerda ou de direita?

Pode ter posições políticas. Pode considerar determinadas propostas da direita mais adequadas em algumas questões e reconhecer contribuições da esquerda em outras. Pode participar do debate público, defender políticas, votar, discordar e exercer plenamente sua cidadania.

O que o cristão não pode fazer é conceder a uma ideologia a autoridade que pertence às Escrituras.

A direita pode enfatizar valores importantes, como responsabilidade pessoal, família, liberdade, ordem e limites para o poder do Estado. Esses valores precisam ser examinados biblicamente.

A esquerda pode levantar questões importantes sobre pobreza, desigualdade, proteção dos vulneráveis e responsabilidade social. Elas também precisam ser examinadas biblicamente.

Nenhum dos lados recebe aprovação automática.

Quando uma proposta política estiver de acordo com princípios bíblicos, podemos reconhecê-la, independentemente de quem a apresentou. Quando estiver em conflito com as Escrituras, precisamos rejeitá-la, mesmo que tenha vindo do partido, candidato ou grupo com o qual simpatizamos.

Coerência cristã precisa vir antes da preferência política.

A pergunta estava invertida

Talvez Josué 5 nos ajude a perceber o problema.

Josué queria saber: “Você está do nosso lado?”

A presença do Príncipe mudou a pergunta.

O cristão não deveria passar a vida tentando descobrir maneiras de provar que Deus pertence ao seu lado político. Deveria examinar continuamente se o seu lado político continua compatível com aquilo que Deus revelou.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “Jesus é de direita ou de esquerda?”. A pergunta é: “Eu estou disposto a permanecer com Cristo quando a Palavra dele contrariar o meu lado?”

O cristão pode ter posição política. O que ele não pode ter é uma posição política que não possa ser corrigida pela Palavra de Deus.

Antes de perguntar de que lado Deus está, precisamos perguntar se estamos do lado de Deus.

Pr. Geziel Damasceno
Transformando vidas pela Palavra.


Série: Cosmovisão Cristã e Vida Pública

Esta é a segunda reflexão da série sobre como o cristão pode analisar os grandes debates da sociedade a partir das Escrituras, sem submeter sua fé a partidos, candidatos ou ideologias.

Artigo anterior: Antes de escolher em quem votar, o cristão precisa saber como pensar.

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